Uma reflexão escrita há quase três séculos por David Hume voltou a ganhar destaque nas redes sociais e em publicações dedicadas ao bem-estar e à filosofia. O pensamento do filósofo escocês, um dos principais nomes do Iluminismo, propõe uma visão da beleza bastante diferente dos padrões rígidos que ainda dominam a sociedade contemporânea.
“A beleza não é uma qualidade das próprias coisas: ela existe apenas na mente que as contempla, e cada mente percebe uma beleza diferente”, escreveu o filósofo em seu ensaio Sobre o Padrão do Gosto.
A frase foi retomada em um artigo publicado pelo portal espanhol Cuerpomente, que relaciona a reflexão do pensador à forma como os ideais estéticos continuam sendo construídos e reproduzidos na atualidade.
Nascido em 1711, David Hume tornou-se uma das figuras mais influentes da filosofia moderna. Para ele, a beleza não está nos objetos em si, mas na experiência individual de quem os observa.
A ideia rompe com uma longa tradição filosófica que entendia a beleza como algo universal e absoluto. Na Antiguidade, Platão defendia que o belo existia em uma dimensão perfeita e imutável, acima do mundo material. As coisas belas que vemos seriam apenas reflexos imperfeitos dessa ideia ideal.
Ao longo dos séculos, diferentes pensadores debateram essa questão. Aristóteles, Santo Agostinho e São Tomás de Aquino apresentaram novas interpretações, enquanto filósofos modernos, como Descartes e Francis Hutcheson, passaram a valorizar a experiência subjetiva.
Segundo o Cuerpomente, foi Hume quem consolidou essa mudança de perspectiva ao afirmar que cada indivíduo percebe a beleza de forma singular.
Para o filósofo escocês, a beleza nasce do encontro entre a mente e o mundo. Isso significa que diferentes pessoas podem encontrar encanto em lugares, objetos ou situações completamente distintos.
A percepção estética, portanto, não seria arbitrária, mas construída a partir das experiências, da sensibilidade, da história de vida e das emoções de cada indivíduo.
O próprio artigo espanhol destaca que, muitas vezes, aquilo que desperta beleza não está nos cenários mais óbvios ou nas imagens mais reproduzidas. Pode surgir em uma rua vazia, em uma luz atravessando uma janela ou em um instante aparentemente comum.
A discussão sobre a beleza também foi aprofundada por Immanuel Kant, filósofo alemão que buscou conciliar a experiência individual com uma certa pretensão de universalidade.
Segundo Kant, quando algo nos parece belo, não costumamos dizer apenas “eu gosto disso”, mas afirmamos que “isso é belo”, esperando que outras pessoas também compartilhem daquela percepção.
O texto do Cuerpomente lembra que esse comportamento aparece em situações cotidianas, como fotografar um pôr do sol, enviar uma música para um amigo ou compartilhar uma imagem nas redes sociais.
A experiência estética continua sendo pessoal, mas existe um desejo de validação e de conexão com o olhar do outro.
Um dos pontos abordados pelo portal espanhol é a influência dos algoritmos e das redes sociais na construção dos padrões estéticos atuais.
Segundo o artigo, as plataformas digitais não criam os ideais de beleza, mas os ampliam e os repetem constantemente, fazendo com que determinados corpos, rostos e estilos de vida sejam apresentados como modelos universais.
Nesse cenário, a reflexão de Hume ganha nova atualidade. A insistência em um único padrão pode fazer com que as pessoas desconfiem do próprio olhar e passem a medir sua percepção a partir da aprovação coletiva. “A cada mente corresponde uma beleza diferente”, defendia o filósofo há quase 300 anos.